Assistir àquela imagem suave, fresca e perecível sendo desenhada no telhado me trouxe uma rodoviária inventada, mas também acionou em mim um apego que eu nem suspeitava existir, pela faceta conhecida daquele lugar.
A conversa atravessada do taxista (sobre a possível mudança do terminal para o Calafate) e os abacaxis-miragem me embrulharam numa sensação difusa: o terminal conhecido ganhava novas pontas ao mesmo tempo que suas formas antigas viravam algo prestes a ser perder na minha memória – caso a mudança acontecesse de fato.
Desde que cheguei à Bahia, me desencontro um pouco do meu pai, que sai bem antes que eu acorde pra dar as aulas no Corró e volta já um pouco cansado pra conversar como eu gostaria. Mas anteontem tivemos algum tempo juntos e falamos sobre a rodoviária, enquanto mandiocas levantavam fervura para serem comidas com manteiga nova e bananas e queijo.
São assim os pratos aqui. O que o vizinho manda de cortesia – no caso, o queijo – se junta ao que preparamos para a noite. Não existe uma lei sobre comer uma carne, um verde e algo batatoso. Existe a lei do que saiu da terra naquele dia, ou da vaca, ou do rio que passa ali em frente. E é essa lei que dá graça e gosto aos nossos pratos.
De forma que a conversa teve bom estímulo e meu pai, um viciado em rádio AM, me explicou várias coisas que eu ainda não sabia sobre a polêmica mudança. A última notícia era de que o projeto havia sido suspenso a pedido do prefeito eleito, Márcio Lacerda, até que houvesse uma consulta popular para ouvir melhor a comunidade a respeito da mudança.
Fui dormir com a vontade de procurar saber mais sobre o que viria acontecer ao prédio. Sonhei abacaxis.



