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frutas-acontecimento

17/12/2008

Assistir àquela imagem suave, fresca e perecível sendo desenhada no telhado me trouxe uma rodoviária inventada, mas também acionou em mim um apego que eu nem suspeitava existir, pela faceta conhecida daquele lugar.

A conversa atravessada do taxista (sobre a possível mudança do terminal para o Calafate) e os abacaxis-miragem me embrulharam numa sensação difusa: o terminal conhecido ganhava novas pontas ao mesmo tempo que suas formas antigas viravam algo prestes a ser perder na minha memória – caso a mudança acontecesse de fato.

Desde que cheguei à Bahia, me desencontro um pouco do meu pai, que sai bem antes que eu acorde pra dar as aulas no Corró e volta já um pouco cansado pra conversar como eu gostaria. Mas anteontem tivemos algum tempo juntos e falamos sobre a rodoviária, enquanto mandiocas levantavam fervura para serem comidas com manteiga nova e bananas e queijo.

São assim os pratos aqui. O que o vizinho manda de cortesia – no caso, o queijo – se  junta ao que preparamos para a noite. Não existe uma lei sobre comer uma carne, um verde e algo batatoso. Existe a lei do que saiu da terra naquele dia, ou da vaca, ou do rio que passa ali em frente. E é essa lei que dá graça e gosto aos nossos pratos.

De forma que a conversa teve bom estímulo e meu pai, um viciado em rádio AM, me explicou várias coisas que eu ainda não sabia sobre a polêmica mudança. A última notícia era de que o projeto havia sido suspenso a pedido do prefeito eleito, Márcio Lacerda, até que houvesse uma consulta popular  para ouvir melhor a comunidade a respeito da mudança.

Fui dormir com a vontade de  procurar saber mais sobre o que viria acontecer ao prédio. Sonhei abacaxis.

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rodoviária-problema

17/12/2008

Primeiro, encontrei na internet um artigo controverso de Ubirajara Baía, analista técnico do metrô de BH e membro da Sociedade Mineira de Engenharia.  Ele questionava a mudança da rodoviária em vários pontos. Escrevi então pra ele como jornalista interessada no caso e recebi uma resposta rápida, da qual tirei os trechos abaixo:

alteração

“Concordo que ali não é lugar para uma rodoviária de viagens interestaduais, de trajetos mais longos. Na minha visão, ali deveria ficar uma rodoviária reservada para viagens de 150 a 200 quilômetros, dentro dessa coroa geográfica que inclui a região metropolitana e vai até Divinópolis, Itabira, Ouro Preto, Mariana e Lafayete.”

“Essas viagens necessitam permanecer na área central pois só assim é possível para um morador do interior vir à capital pela manhã, resolver todos os seus problemas durante o dia e, no final da tarde, tomar seu
ônibus de volta e jantar em casa à noite.”

duas outras rodoviárias

“Minha sugestão é de que sejam construídas outras duas rodoviárias: uma em cada extremo da cidade, uma entre a avenida Amazonas e a Via Expressa e a outra na Estação São Gabriel do metrô, que está ociosa. O metrô seria a ligação entre as duas rodoviárias novas com o terminal que já existe e com o restante da cidade.”

… mas não no Calafate

“Isso é coisa de louco, é descabido. Construir no Calafate é transferir o problema, porque no bairro existe o Expominas e a PUC, que já chamam trânsito para o local. E, com a rodoviária onde está, qualquer passageiro da região metropolitana precisa fazer só uma viagem para chegar até lá. No Calafate, a imensa maioria destas pessoas precisará tomar duas linhas de ônibus.”

acusação

“O projeto da rodoviária no Calafete é da BHTRans. Os grandes financiadores de campanha política são sempre os empresários de ônibus e empreiteiras e isso se reflete na ação dos órgãos públicos. Pela lei orgânica do município, não se pode construir no Calafate um shopping, mas uma rodoviária com um shopping em cima pode. Isso interessa ao grupo DMA, que reúne (os supermercados) Via Brasil, Epa e Mart Plus. Este mesmo grupo já fez um shopping agregado ao BHBus no Barreiro, que parece não ter dado o roteiro que esperavam, então agora querem tentar no Calafate.”

…sem resposta

Diante do email de Ubirajaraa, procurei o chefe da assessoria da BHTrans, Ronan Aguiar, que não se defendeu das acusações e disse que o órgão não vai se manifestar sobre o projeto até que a consulta popular seja realizada.

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o moço dos abacaxis

14/12/2008

Assim que o blog entrou  ar, achei que devia escrever para o moço dos abacaxis, Pablo Lobato. Não só pra contar que algo também tinha brotado por aqui, mas pra saber dele como a instalação, a Coroa, tinha crescido antes em sua cabeça pra depois ganhar a forma que vi no telhado, ao passar pela rodoviária.

Ele me responde hoje, impressionado em saber que os abacaxis serviram de estopim pro blog. Me manda fotos da montagem e explica que é um dos dez artistas selecionados pelo 29º Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte – Bolsa Pampulha e que uma das propostas da curadoria foi que durante o mês de dezembro, último mês da bolsa, cada artista realizasse uma ou mais ações expositivas no espaço público. “Coroa é o nome de um dos meus trabalhos que consiste na instalação de 140 abacaxis no telhado do prédio da rodoviária, por uma semana”, diz.

abacaxis ao alto

abacaxis ao alto

Metade deles foi colocada nos fundos do prédio e pode ser vista por quem desce na estação do metrô. A outra metade está na frente do terminal, onde eu avistei os primeiros nascendo. “Uma sensação abacaxi e uma sensação concreto se misturaram desde o dia em que decidi realizar essa instalação. Conduziram todo o processo até ontem, quando colocamos a última fruta. Estão lá agora, olhando para quem passa. As linhas do prédio estão riscadas, o desenho arquitetônico foi ocupado, habitado. Tudo isto parece indicar um livre acesso ao espaço público”, me escreve.

lá de baixo, eu olhei pra cima e vi

lá de baixo, eu olhei pra cima e vi

Não sei bem qual foi minha sensação ao ver as frutas lá naquela quinta, mas se aproxima um pouco disso que Pablo diz, de pensar sobre como alguém (eu também) pode (posso) transitar pelos lugares públicos a ponto de subir num prédio e fazer frutas brotarem do telhado. De pensar a rodoviária como algo que também me pertence.

>> dica do Pablo: quem estiver em BH nesta quarta e quinta (17 e 18) pode saber mais sobre o trabalho dos artistas da Bolsa Pampulha no ciclo de debates que o MAP vai promover sobre arte pública. vai ser um encontro do público com os bolsistas, artistas convidados, críticos e estudiosos.

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I – efeito deslocamento

13/12/2008

Acontece sempre durante as viagens. Entro no avião, no carro, no ônibus e me meto num tempo em suspensão. Não está mais ao meu alcance resolver coisa nenhuma, me salvar, descobrir qualquer verdade. Tudo o que resta é sentar e me submeter ao ritmo do trajeto, esperar a chegada, acompanhar as nuvens, as vacas, um redemoinho (se der sorte), ou o que mais cruzar a janela em movimento.

E quando as nuvens se tornam repetitivas, as vacas viram pontos brancos e somem, a sorte falha e nenhum redemoinho aparece, sou tomada por um semi-transe, com flashes de memórias desgarradas que me vêm projetadas numa lógica indecifrável, mas hipnótica, frame a frame. É meu efeito deslocamento.

Desta vez, sigo de volta pra Bahia com muita vontade das bananas que meu pai deixa secando em pequenas vasilhas forradas do lado de fora da casa. Mas em vez do frame a frame de lembranças, está grudado na minha cabeça aquilo que vi quando passei pela rodoviária.

(este post começa na estrada e segue nas 4 pílulas abaixo)

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II – taxi-notícia & abacaxis de telhado

13/12/2008

No tempo em que vivi em Belo Horizonte, sempre pensei na rodoviária como o fim da linha, limite da cidade. O prédio feito um outdoor gigante e por atrás dele, nenhuma continuação de ruas, prédios, nada, só estradas emendadas levando a outros lugares.

Enquanto atravessávamos a Afonso Pena em direção ao terminal, o taxista me contou sobre a mudança da rodoviária do Centro para o Calafate. Estive fora do país por quatro anos e voltei há poucos dias, pra rever alguns amigos na cidade, antes de ir visitar meu pai. O motorista falou da polêmica em torno da história, mas ele próprio parecia animado com a mudança. Como faz ponto no Funcionários, as corridas até a nova rodoviária seriam mais longas.

Já eu me incomodei com a idéia de que aquela podia ser minha última passagem pela rodoviária que pra mim sempre estaria ali. Era sobre isso que pensava quando chegamos em frente ao prédio e avistei coisas verdes na laje, bem no alto da fachada.  Ficamos alguns minutos parados no trânsito antes de entrar e não despreguei o olho da movimentação que acontecia lá em cima. Pessoas colocavam mais objetos verde na beirada do telhado, um do lado do outro, da direita pra esquerda.

Só pude ver que eram abacaxis quando subimos a rampa. Foi um flash, quase uma miragem, mas os abacaxis existiam mesmo, confirmei, e agora ainda estão lá. Estranhos, bonitos e dourando no sol.

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III – rumo à Bahia

13/12/2008

Quando saí do táxi, ainda tinha alguns minutos até a hora de embarcar, então desci até o estacionamento aberto, em frente ao prédio, pra dar uma última olhada. Mais abacaxis avançavam entre os vértices. Fiz uma foto.

subi no ônibus pensando neles

subi no ônibus pensando neles

Caminhei de volta pro prédio e um mocinho passou por mim carregando uma caixa com as frutas. O que podia ser aquilo? Tive que perguntar, mas ele só teve tempo de dizer que estavam montando uma instalação. E me deu um cartão do Museu de Arte da Pampulha.

Entrei no ônibus com muitos abacaxis na cabeça e um cartão no bolso. De algum jeito, aquelas frutas improváveis brotando no telhado ocuparam o canal que geralmente transmite meu road-movie de lembranças entorpecentes. Entendi então que precisava que escrever sobre eles.

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IV – do orelhão para o MAP

13/12/2008

Com o laptop no colo, vejo abacaxis na carroceria de um caminhão que cruza a rodovia na direção contraria à nossa. O fruto também está desenhado na bala melada que meu vizinho de poltrona me oferece – e não aceito.

Sorria, cheguei na Bahia. E na rodoviária de Itanhém, lá estão de novo os abacaxis piscando pra mim, no carrinho de frutas rodeado de moscas. Meu pai me espera e vamos seguir para a fazenda. Ele envelheceu e deve estar pensando o mesmo de mim, mas não dizemos nada. Um abraço e só. Ele me dá a boa notícia de que já instalaram internet no Corró, o pequeno povoado onde fica sua terra.

Antes de entrarmos no carro pra seguir até a fazenda, digo que preciso telefonar. Disco no orelhão o número do MAP e fico sabendo que a instalação na rodoviária tem 140 abacaxis, se chama Coroa. O trabalho é de Pablo Lobato, um artista que não conheço. Explico que sou jornalista e gostaria de entrevistá-lo, consigo seu email! Seguimos de caminhonete pra fazenda.

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V – panquecas no Corró

13/12/2008

Neste momento, painho está na cozinha e me prepara panquecas grossas com ovos gordos e vermelhos porque era isso que eu comia quando passava as férias com ele. Este blog nasce aqui, no pueblo do Corró, onde há duas ruas, uma escola, três bares, uma venda, duas igrejas e um orelhão. Depois de muito bater o pé, meu pai, jornalista exilado na roça e hoje professor na escola, conseguiu que a internet chegasse ao vilarejo. É quase um milagre, como os abacaxis dourando ao sol.

Escrevo para Pablo dizendo que suas frutas me perseguiram de BH até a Bahia e que por isso, o blog está no ar. Quero saber mais sobre a Coroa e falar com ele, mas também entender a mudança da rodoviária. Talvez tenha de ir atrás de outras pessoas. Contar alguma história que ainda não sei qual, mas que começa na rodoviária, nos abacaxis de telhado, no meu  medo de que nem os abacaxis nem a rodoviária estejam lá quando eu voltar.

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13/12/2008

As panquecas estão prontas e agora preciso ir pra derramar mel em cima delas. Amanhã, esta história continua. Fui espetada, quero espetar de volta.